quarta-feira, 10 de junho de 2009

Meu amigo sol



Nunca fui uma adolescente seguidora do sol.
Minhas amigas iam todo final de semana a praia, era "O programa."
Eu? ia..., mas sempre com um certo respeito pelo sol. Sentia minha pele igual uma frigideira na praia. O pior era quando perguntava "A água ta boa? não sei" diziam "nem olhei o mar." Ficava indignada.
Quando chegava, estendia minha canga e ia pro mar. Adoro água. Mas quando isso não era possível meu segundo movimento era a frase "Gente, quero sombra."
Todas as amigas já sabiam como eu era. Sempre a primeira a querer ir embora da praia. Me lembro o dia em que estávamos todas, eu, nós cinco, agregados e eu não parava de falar do sol e também ninguém me deixava ir embora. Foi quando tive uma miragem. Ví um vendedor de barracas daquelas gigantes! Meu sorriso foi se abrindo, aquela visão me deixou eufórica, afinal, seria a solução de todos os meus problemas. Comprei a barraca mais linda da praia, toda rosa e obviamente, no final da tarde todo mundo queria ficar embaixo da barraca cor de rosa da Lu. Na época fiz a alegria da garotada.
Depois de um tempo o meu amigo sol voltou, mais forte ainda e eu voltei a soltar os meus alertas gerais. "pessoal, to fritando. Pessoal tô ficando desidratada. Meninas, como vocês aguentam ficar igual um frango assado nesse sol???!!!!" As pessoas nem ligavam mais. O mais impressionante era que falavam, "Lu, vc ta muito estressada, relaxa senão você vai ter um troço! " e hoje eu realmente tomei consciência que elas deviam ter uma certa razão. Isso tudo é para contar uma outra história.
Hoje faz extamente 1 ano e 3 meses que descobrí que estava com câncer de pele. Até aí concordo que é algo normal com o sol que vivemos, mesmo passando protetor e ficando embaixo da barraca. Tinha uma pequenucha ferida no lombo do nariz que não cicatrizava. Minha dermatologista me disse " vc esta com cancer de pele no nariz." Até então essa palavra nunca tinha passado pela minha cabeça, é muito pesada.
Segurei firme, levantei a cabeca e tudo bem, vamos tratar. Perguntei qual seria o procedimento. Haveriam muitos cremes para passar e em último caso entrar na faca. Nunca tinha passado pela minha cabeça que um dia teria algo parecido. Fui pro trabalho e continuei meu dia normalmente. A noite percebí que tinha algums manchas vermelhas na barriga. Não tinha nada de manhã. A médica tinha me examinado toda. Na verdade a notícia desencadeou no meu sistema nervoso a tal da "Pitiríase Rosea de Gilbert". Quando escutei pela primeira vez pensei " que nome imponente!"
No terceiro dia comecei a perceber o que realmente estava acontecendo comigo. Com uma semana de Pitiríase praticamnete descasquei a pele inteira e parecia um boto cor de rosa, mas como sempre vieram palavras confortantes da minha dermatologista..."calma, só fica no tronco, braços e pernas, não chega no rosto. O mais importante é cuidar do nariz " Carambolas!! mas a pitiríase surgiu da notícia do baso celular! Tenho que cuidar é da minha cabeça.
A parte divertida era o pessoal do trabalho que ficava horrorizado quando levantava a blusa e mostrava o pequeno estrago. Como não sentia dor, até achava engraçado a cara de nojo das pessoas olhando minha barriga. Elas passavam longe de mim. No quarto dia minha chefe chegou de São Paulo. Queria que ela visse porque na época meu trabalho era EXTREMAMENTE estressante. Minha chefe ficou histérica. "Vai pra casa!! ta doida! esse negócio pode ser contagioso" sabia que não era.
Acabei tendo duas semanas em casa, de licença descansando não da pitiríase, mas principalmente da minha chefe, e do meu trabalho. Obviamente a primeira semana eu só dormia do cansaço e sono dos antialérgicos que tinha que tomar. Três por dia. Abria o olho pra ir ao banheiro ou comer e voltava pra cama.
Depois das minhas duas paradisíacas semanas em casa infelizmente voltei para meu trabalho. Comecei a cuidar do meu nariz. Gastei milhões em cremes, mas mesmo depois do tratamento tive que entrar na faca.
Estava muito tranquila quanto a operação. Fui em um dos melhores cirurgiões plásticos do Rio e ele olhou meu nariz, examinou e saí mais tranquila do consultório. Marquei o dia da operação e fui. Me lembro de voltar drogue da sala de operação, um cheiro de éter muito forte e uma voz falando "acabou Luciana, estamos te levando pro quarto". No dia seguinte da operação é que fiquei sabendo maiores detalhes. O baso celular foi retirado mas estava muito maior do que se imaginava. Hoje fazem dois meses que operei e meu nariz esta voltando ao normal. Acredito que no meu caso, o cancer de pele não foi por causa do sol mas sim do stress.
Stress acumulado ao longo desses anos todos. Sinto como se tivesse sofrido um acidente de carro e acordei com a cara estranha. Estou aprendendo a não me estressar mais tanto e
tenho que admitir que naquela época minhas amigas tinham razão em pelo menos uma coisa.
Meu amigo sol não era o problema. Era a inquietude que sentia estar abaixo dele. O meu stress.
Beijos a todos!

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